⚡ NIMBUS E A CHAVE DO VAZIO
Trilogia A Cidade das Nuvens — Livro 3 — O GRANDE FINAL
O que aconteceu nos livros anteriores:
Theo chegou a Nimbus e descobriu que a cidade existe para prender a Sombra Sem Nome — uma força ancestral que consome tudo. Com a ajuda de Mumu (seu Guardião Fluffo) e Sira (a mais inteligente da escola), ativou cinco pontos de energia e recarregou o cristal que mantém a Sombra presa. No caminho, encontrou Kael — um ex-estudante de 30 anos atrás que queria controlar a Sombra em vez de apenas prendê-la. Kael foi embora com uma promessa: alguém ia tentar entender a Sombra de verdade. Essa alguém é Sira. Mas agora Kael voltou. E não veio sozinho.
CAPÍTULO 1 — O Retorno
A carta chegou de manhã.
Não pelo jeito dramático da primeira vez — sem aparecer no mingau, sem tinta dourada. Dessa vez era um envelope cinza, simples, deslizado por baixo da porta do dormitório de Theo como se quem o entregou não quisesse ser visto.
Dentro havia uma única linha:
Preciso de ajuda. — K
Theo mostrou para Sira.
Sira mostrou para Mumu.
Mumu comeu um biscoito enquanto pensava.
— K de Kael — Mumu disse com a boca cheia.
— Não conheço nenhum outro K — disse Sira.
— Ele disse que voltaria — Theo dobrou o papel devagar. — Mas disse que precisaria de ajuda. Isso é diferente.
— Kael nunca pediu ajuda para ninguém — Sira olhou para as anotações que havia feito nos últimos meses. Sete cadernos cheios, todos sobre a Sombra, todos tentando entender o que Kael havia tentado fazer décadas atrás. — Pedir ajuda significa que algo está muito errado.
Mumu parou de mastigar.
— Quão errado?
Antes que alguém pudesse responder, a janela estourou.
Não de forma violenta — o vidro simplesmente se dissolveu, como açúcar em água, e no lugar ficou uma abertura pela qual entrou uma rajada de vento gelado.
E no vento, uma voz. Sussurrada. Sem direção certa.
Theoooo…
Os três congelaram.
— Isso não foi o vento — disse Mumu.
— Definitivamente não foi o vento — confirmou Sira.
Theo foi até a abertura e olhou para fora.
O céu de Nimbus estava azul. O cristal estava brilhando. Tudo parecia normal.
Exceto por uma coisa.
No horizonte, onde a Sombra costumava ficar — onde havia sido presa — havia uma rachadura. Pequena. Quase imperceptível. Uma linha fina de escuridão no azul perfeito do céu.
Como uma trinca num espelho.
CAPÍTULO 2 — Kael
Eles encontraram Kael na ponte mais alta — a mesma onde Theo havia ativado o primeiro ponto de energia meses atrás.
Ele estava diferente.
Não na aparência — ainda cabelos brancos, ainda olhos sem cor. Mas havia algo na postura dele. Menos arrogante. Mais cansado. Como alguém que passou meses carregando algo pesado demais.
— Você demorou — ele disse quando os três chegaram.
— Você mandou uma carta de uma linha — Sira respondeu, tirando o caderno. — Poderia ter dado mais detalhes.
Kael olhou para o caderno. Por uma fração de segundo, algo passou pelo rosto dele — surpresa, talvez, ou gratidão, que ele converteu rapidamente em expressão neutra.
— Você estudou — ele disse.
— Sete cadernos — Sira respondeu. — Fala logo o que está acontecendo.
Kael olhou para o horizonte. Para a rachadura.
— Quando fui embora de Nimbus — ele começou, — não fui para lugar nenhum em particular. Fiquei nas nuvens. Nas bordas. Tentando entender a Sombra por fora, sem o cristal como intermediário.
— Isso é extremamente perigoso — disse Sira.
— Eu sei disso agora.
— Você deveria ter sabido antes.
— Sira — disse Theo.
— Não, ela tem razão — Kael interrompeu. — Eu deveria ter sabido. Mas não sabia. E nas bordas da Sombra, encontrei algo.
Ele fez uma pausa.
— A Sombra não é apenas uma força. Ela tem… camadas. Por fora, é o Vazio que vocês conhecem — frio, cinza, que consome. Mas por dentro — no centro, onde ninguém jamais foi — há algo diferente.
— Diferente como? — Theo perguntou.
Kael olhou para ele com aqueles olhos sem cor.
— Uma consciência.
Silêncio absoluto.
Até o vento parou por um segundo.
— Você está dizendo — Sira disse devagar, cada palavra calculada, — que a Sombra Sem Nome é… senciente?
— Não exatamente. Não como nós. Mas há algo lá dentro que age com intenção. Que aprende. — Kael apertou as mãos. — E que me seguiu de volta.
CAPÍTULO 3 — O Que Estava Dentro da Sombra
A rachadura cresceu durante a noite.
Theo a viu da janela — agora tinha o tamanho de um braço, fina mas definitiva, como uma porta entreaberta.
O cristal ainda brilhava. Ainda segurava a parte externa da Sombra. Mas a rachadura era diferente — não era a Sombra em si. Era o que havia dentro dela.
— O cristal foi construído para prender o Vazio — explicou Kael, na sala secreta, diante do Professor Rabisco e da Professora Vex. — Mas ninguém sabia que havia algo dentro do Vazio. Algo que o cristal não reconhece como ameaça, porque tecnicamente não é o Vazio.
— É como prender um lobo numa gaiola — disse Sira, folheando um dos cadernos, — sem perceber que o lobo tinha filhotes.
Kael olhou para ela. Demorou um segundo.
— Exatamente isso — ele disse. — Exatamente.
— Então o que é esse… filhote? — Theo perguntou.
— Ainda não sei — Kael admitiu, e era visível que admitir isso custava algo pra ele. — Sei que é pequeno. Menor que a Sombra. Sei que é curioso — observa mais do que age. E sei que está crescendo.
— Crescendo como? — o Professor Rabisco perguntou.
— Se alimentando da energia do cristal. Por fora o cristal parece intacto. Por dentro… — Kael olhou para o objeto flutuante. — Ele está sendo drenado de dentro para fora.
A sala ficou em silêncio.
Theo olhou para o cristal. Ainda brilhava. Mas agora que sabia o que procurar, percebeu — a luz estava levemente menos intensa que antes. Como uma lanterna cujas pilhas estavam acabando.
Devagar. Mas definitivamente.
CAPÍTULO 4 — Mumu Tem Outra Coisa a Dizer
Naquela noite, Mumu não dormiu.
Theo o encontrou sentado na janela — de novo — olhando para a rachadura no céu que agora tinha o tamanho de uma janela.
— Mumu.
— Eu sei o que é — Mumu disse, sem se virar.
Theo foi sentar ao lado dele.
— O que você quer dizer?
Mumu ficou quieto por um longo momento. O pelo azul estava mais quieto que o normal — não eriçado de medo, mas chapado, pesado.
— As histórias dos Fluffos — ele começou, — falam de uma coisa que os nossos ancestrais chamavam de Núcleo. O coração da Sombra. Uma parte que não consome — que observa. Que aprende. — Ele finalmente se virou para Theo. — As histórias dizem que o Núcleo não é mau. É… perdido. Como uma criança que acordou num lugar escuro e não sabe como sair.
Theo ficou olhando para o amigo.
— Uma criança.
— Metaforicamente — Mumu fez aquela coisa de levantar um dedinho. — Não é literalmente uma criança. Mas age como uma. Com medo. Com curiosidade. Sem saber o que está fazendo ou o mal que está causando.
— E os seus ancestrais — Theo disse devagar, — quando foram para dentro da Sombra e não voltaram…
— Foram encontrar o Núcleo — Mumu confirmou. — Não para destruir. Para falar. — Ele fechou os olhos. — Não funcionou. O Vazio consumiu todos antes que chegassem ao centro.
— Porque eram adultos? — Theo perguntou, uma ideia tomando forma.
Mumu abriu os olhos.
Olhou para Theo.
— Porque eram adultos — ele disse, e a voz estava diferente agora. Menor. — Dom das Nuvens. Só crianças conseguem…
— Ver o que adultos não veem — Theo completou.
Os dois ficaram se olhando.
— Não — disse Mumu.
— Mumu…
— Não, não, não. De jeito nenhum. Absolutamente não. Nada disso. Proibido. Vetado. Contra as regras. Contra a natureza. Contra tudo.
— Alguém precisa ir ao centro da Sombra e falar com o Núcleo.
— Sim e esse alguém vai ser outra pessoa porque você é meu protegido e eu sou seu Guardião e meu trabalho é exatamente te impedir de fazer coisas assim!
— Mumu.
— NÃO.
— Mumu, olha para mim.
Mumu olhou. Relutante. Com os olhos imensos cheios de uma coisa que em Fluffos devia ser o equivalente ao desespero.
— Eu não vou sozinho — Theo disse. — Vou com você.
Mumu abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo.
— …você é o pior protegido do mundo — ele disse finalmente.
— Eu sei.
— E eu sou o melhor Guardião do mundo.
— Também sei.
— …quando saímos?
CAPÍTULO 5 — O Plano
Sira levou exatamente quarenta e cinco minutos para criar um plano.
Kael ficou escutando com os braços cruzados e expressão de quem está impressionado mas não vai admitir.
— O cristal ainda tem energia suficiente para criar um corredor — Sira apontou para o caderno, — uma espécie de bolha protetora. Não vai durar muito tempo — estimativa de vinte minutos dentro da Sombra antes que a energia seja consumida pelo Núcleo.
— Vinte minutos para convencer uma entidade milenar a parar de destruir o cristal — Kael disse.
— Você tem uma alternativa melhor?
Pausa.
— Não.
— Então vinte minutos é o que temos. — Sira fechou o caderno. — O corredor vai ser criado pelo cristal, mas alguém precisa ancorá-lo daqui. Manter o canal aberto.
— Eu faço isso — disse Kael.
Todos olharam para ele.
— Passei meses nas bordas da Sombra — ele disse, sem a arrogância de antes. Apenas um fato. — Conheço a energia dela melhor que qualquer pessoa aqui. Posso segurar o canal.
— Se o canal fechar — Sira disse, — Theo e Mumu ficam presos dentro.
— Eu sei disso — disse Kael.
— Você também sabe — disse o Professor Rabisco, da cadeira onde ficava observando tudo, — que segurar o canal vai drenar sua própria energia. Não a do cristal. A sua.
Kael não respondeu.
O que era uma resposta.
— Kael — Theo disse.
— Você tem vinte minutos — Kael se levantou. — Não desperdice.
CAPÍTULO 6 — Dentro
Entrar na Sombra foi diferente de tudo que Theo havia imaginado.
Não era escuro. Era cinza — um cinza que não era cor, era ausência. Como se o mundo tivesse sido fotocopiado várias vezes até perder toda a definição.
O corredor de energia do cristal brilhava ao redor deles como uma bolha azul-dourada. Fora dele, o cinza pressionava — não agressivamente, mas com peso. Como estar embaixo d’água.
— Não gosto daqui — Mumu sussurrou.
— Eu sei.
— Está me fazendo querer chorar e não sei por quê.
— É o Vazio — Theo disse. — Ele absorve. Faz tudo parecer menos.
— Como você sabe isso?
— Estou sentindo também.
Eles caminharam em silêncio. Ou não caminharam — não havia chão exatamente, apenas uma direção que parecia certa, como sempre acontecia com o Dom de Theo.
O centro estava mais longe do que parecia. E mais perto do que era possível.
E então apareceu.
CAPÍTULO 7 — O Núcleo
Não era o que Theo esperava.
Não era monstruoso. Não era aterrorizante. Era uma esfera — pequena, do tamanho de uma bola de futebol — flutuando no centro de tudo, pulsando com uma luz que tentava ser de uma cor mas ficava mudando, como se não soubesse qual cor ser.
E ao redor dela, como planetas ao redor de um sol, giravam fragmentos. Pedacinhos de coisas. Pedaços de nuvem. Fragmentos de luz. Pequenos fios de memória — porque Theo reconheceu, sem saber como, que eram memórias. De Nimbus. Da Sombra. De momentos antigos que o Núcleo havia observado sem poder participar.
— Uau — disse Mumu.
— Uau — concordou Theo.
A esfera pulsou. Parou de girar. Virou-se — metaforicamente, porque não tinha frente nem costas — na direção deles.
E Theo sentiu, mais do que ouviu, uma pergunta.
Não em palavras. Em sensação. Em pressão no peito que dizia claramente:
Por que você está aqui?
Theo respirou fundo.
— Vim falar com você.
A esfera pulsou. Outra sensação — surpresa? Curiosidade? Algo que dizia:
Ninguém nunca veio falar. Eles sempre vêm lutar.
— Eu não vim lutar — disse Theo. — Vim entender.
CAPÍTULO 8 — A Conversa
Não era uma conversa em palavras.
Era uma conversa em imagens, sentimentos, impressões que apareciam e desapareciam como nuvens. Theo falava, o Núcleo respondia com sensações, e Theo traduzia essas sensações em pensamentos.
Era exaustivo e extraordinário ao mesmo tempo.
Ele entendeu, aos poucos, a história do Núcleo.
Era antigo. Mais antigo que Nimbus, mais antigo que qualquer cidade nas nuvens, mais antigo que qualquer coisa que Theo pudesse imaginar. Havia nascido — se é que nascer era a palavra certa — dentro do Vazio, que não era exatamente mau, apenas imenso e vazio e sem direção.
O Núcleo era diferente. Era a parte do Vazio que queria entender. Que observava. Que se perguntava coisas.
Mas estava preso dentro do Vazio. E quando o Vazio foi preso pelo cristal, o Núcleo foi preso junto.
E havia muito tempo — séculos — tentando sair. Não para destruir. Para ver. Para entender.
Era, Theo percebeu com um aperto no coração, muito solitário.
Você está consumindo o cristal — Theo pensou claramente, como se fosse uma pergunta.
A esfera pulsou. Confirmação. Mas também algo mais — arrependimento, talvez. A coisa mais parecida com arrependimento que uma entidade sem rosto conseguia expressar.
Não sei como parar — era o que a sensação dizia. Quando quero ver mais, consumo mais. É o único jeito que conheço de me mover.
— E se eu te mostrasse outro jeito? — Theo disse em voz alta.
Mumu olhou para ele.
— Você tem um jeito? — Mumu sussurrou.
— Estou inventando agora — Theo sussurrou de volta.
— THEO!
— Fica calmo! Tenho uma ideia!
CAPÍTULO 9 — A Ideia
O Dom das Nuvens.
Theo pensou rápido — mais rápido do que havia pensado qualquer coisa na vida, porque sentia o corredor ao redor deles ficando levemente menos brilhante. O tempo acabando.
O Dom das Nuvens era a capacidade de ver o que outros não viam. De enxergar a Sombra quando adultos não conseguiam. De sentir os pontos de energia e ativá-los.
Era uma janela, essencialmente. Uma forma de ver entre mundos.
E se — Theo pensou — o Núcleo pudesse usar essa janela?
Não para se mover. Não para consumir. Apenas para ver.
— Eu posso ser seus olhos — Theo disse para o Núcleo. — Não agora, não sempre. Mas às vezes. Posso te mostrar o que está lá fora. As nuvens. A cidade. As pessoas.
A esfera parou completamente.
Em troca de quê?
— Em troca de você parar de consumir o cristal — disse Theo. — E deixar a Sombra ficar onde está. Não porque está presa. Mas porque escolhe ficar.
A esfera ficou completamente imóvel.
Mumu havia parado de respirar.
O corredor estava claramente mais fraco agora. Theo calculou — mal — que tinham talvez dois minutos.
Como sei que você vai cumprir?
— Não sabe — Theo disse, honestamente. — Assim como eu não sei se você vai cumprir. É uma promessa. As duas partes precisam confiar.
Silêncio.
Dois minutos.
Um minuto.
A esfera pulsou. Uma vez. Duas. Uma cor surgiu — azul, como o cristal, como os olhos de Mumu, como o céu de Nimbus em dia claro.
E se fixou.
A esfera tinha uma cor agora.
Prometido — disse a sensação. Mas você não pode esquecer.
— Não vou esquecer — disse Theo.
E o corredor os puxou de volta.
CAPÍTULO 10 — De Volta
Kael estava no chão quando eles saíram.
Não inconsciente — mas perto disso. Sira estava do seu lado, segurando o ombro dele, e o Professor Rabisco olhava com uma expressão que misturava preocupação e admiração em proporções iguais.
O cristal brilhava intensamente — mais do que nunca, mais do que antes de tudo isso começar.
E a rachadura no céu estava fechada.
— Funcionou? — Sira perguntou, levantando o olhar para Theo.
— Funcionou — disse Theo.
— O que você fez?
— Fiz uma promessa.
Sira abriu o caderno imediatamente.
— Preciso de detalhes. Tudo. Do começo.
Theo olhou para Kael, que estava sendo ajudado a sentar pelo professor.
— Você vai ficar bem? — Theo perguntou.
— Segurei o canal por vinte e três minutos — Kael disse, com uma voz que tentava ser normal e ficava levemente grogue. — Três minutos a mais que o previsto. Estou ótimo.
— Você está verde.
— É minha cor natural.
— Você não é verde.
— Estou reavaliando.
Mumu soltou uma risada — uma risada de verdade, não contida, que saiu como uma bolha enorme de ar azul pelo nariz e fez todo mundo na sala olhar para ele.
— Desculpa — Mumu disse, claramente sem se desculpar. — É que vocês dois são engraçados.
CAPÍTULO 11 — O Que Mudou
Nos dias seguintes, Nimbus foi diferente de um jeito difícil de explicar.
O cristal brilhava com uma estabilidade que o Professor Rabisco disse nunca ter visto. A névoa cinza havia desaparecido completamente. O céu estava mais azul do que qualquer memória coletiva da cidade conseguia recuperar.
E às vezes — raramente, suavemente — Theo sentia um toque de consciência no peito. Como alguém batendo levemente numa porta.
Quando isso acontecia, ele ia até a janela e olhava para o céu. E tinha a sensação de que algo, lá dentro do Vazio atrás do cristal, estava olhando junto.
Ele havia prometido mostrar o mundo.
Estava cumprindo.
Kael ficou.
Não foi uma decisão dramática — uma manhã ele simplesmente não foi embora, e ninguém perguntou, e ele começou a aparecer na biblioteca, estudando. Às vezes Sira aparecia e os dois ficavam em silêncio lado a lado, cada um no seu caderno, trocando notas sem falar.
O Professor Rabisco disse que havia uma vaga de assistente de pesquisa disponível.
Kael disse que ia pensar.
No dia seguinte estava lá às oito da manhã.
— Você disse que ia pensar — disse a Professora Vex.
— Pensei rápido — disse Kael.
CAPÍTULO 12 — Mumu
Uma tarde, Theo encontrou Mumu no mesmo lugar de sempre — beira da ponte, perninhas balançando, olhando para baixo.
Mas dessa vez sem peso no pelo. Sem aquela quietude pesada.
Só Mumu, olhando para as nuvens com os olhos imensos e amarelos.
— Em que você está pensando? — Theo perguntou, sentando ao lado dele.
— Em nada — disse Mumu.
— Você nunca pensa em nada.
— Tô pensando em biscoito então.
— Mumu.
— Tô pensando — Mumu suspirou, — nos meus ancestrais. No que tentaram fazer. No que eu fiz diferente.
— O que você fez diferente foi não ir sozinho — disse Theo.
Mumu ficou olhando para as nuvens.
— Eles foram porque achavam que tinham que resolver tudo. — A voz estava mais quieta que o normal. — Que era responsabilidade deles. Que só eles poderiam. E foram sozinhos e não voltaram.
— E você foi com um menino de nove anos atrapalhado — disse Theo.
— Dez agora — Mumu corrigiu. — Você fez aniversário semana passada.
— Fui com um menino de dez anos atrapalhado — emendou Theo.
Mumu soltou uma bolhinha de ar azul pelo nariz. O equivalente Fluffo de um sorriso.
— Não é tão atrapalhado — ele disse. — Às vezes.
— Às vezes.
— Na maior parte do tempo, na verdade.
— Mumu.
— Você é meu melhor amigo — Mumu disse de repente, sem preparação, sem cerimônia, olhando para as nuvens. — Só queria dizer isso.
Theo ficou quieto por um segundo.
— Você é meu melhor amigo também — ele disse. — E o melhor Guardião do mundo.
— Isso é objetivamente verdade — Mumu concordou. — Não é modéstia, é fato.
— Definitivamente fato.
Eles ficaram sentados em silêncio por um tempo, olhando para as nuvens que passavam devagar — brancas, limpas, sem névoa cinza, sem rachadura no horizonte.
Apenas nuvens.
CAPÍTULO 13 — Uma Última Carta
Três semanas depois do fim de tudo, Theo recebeu uma carta.
Dessa vez pelo método convencional — na caixa de correspondência da escola, envelope branco, sem drama.
Era da sua avó.
Theo,
Sei que você está bem porque suas cartas chegam cheias de energia — mesmo quando diz que está tudo tranquilo, as letras parecem querer voar da página.
Estou bem. As plantas estão bem. A cadeira da varanda onde você se sentou antes de ir ainda está lá, esperando.
Volte quando puder. Não com pressa. Nimbus parece precisar de você.
Mas lembre que eu também preciso, de vez em quando.
Com amor,
Vovó
P.S.: Trouxe um biscoito novo da padaria. Guardei um para você. Vai estar velho quando chegar, mas a intenção é o que conta.
Theo dobrou a carta com cuidado.
— Notícias de casa? — Sira perguntou, passando com uma pilha de livros enorme.
— Da minha avó.
— Ela está bem?
— Está. — Theo colocou a carta no bolso. — Ela guardou biscoito para mim.
— Que QUEEÊ — Mumu apareceu do nada, como fazia sempre que a palavra biscoito era mencionada em qualquer raio de cinquenta metros. — Tem biscoito? Onde? Posso?
— Está velho — disse Theo. — E em casa. Que fica lá embaixo.
Mumu olhou para baixo. Para as nuvens que separavam Nimbus do mundo normal.
— …quando você vai visitar sua avó?
— Nas férias, acho.
— Posso ir?
— Claro.
Mumu começou a saltitar.
— Vou conhecer o mundo normal! Vou ver biscoitos normais! Vou ver como é viver sem nuvem no chão! Sira, você vem?
Sira não levantou o olhar dos livros.
— Tenho pesquisa para fazer.
— Sira.
— O Núcleo não vai se estudar sozinho.
— SIRA.
— …posso ir no segundo fim de semana?
EPÍLOGO — O Que Nimbus É
Antes de dormir, Theo sempre ia até a janela.
Olhava para o cristal que brilhava constante na sala secreta — visível de longe como uma estrela particular de Nimbus. Olhava para o céu, sempre limpo agora, sempre azul mesmo à noite, com estrelas que em nenhum outro lugar do mundo ficavam tão perto.
E sentia, às vezes, aquele toque suave de consciência.
Uma vez havia tentado descrever para Sira o que o Núcleo sentia quando Theo mostrava o mundo.
— Como você descreveria? — Sira havia perguntado, caneta pronta.
Theo havia pensado por um tempo.
— Parece admiração — ele disse finalmente. — Como quando você vê algo pela primeira vez e é mais bonito do que esperava.
Sira havia anotado.
Kael, que estava do outro lado da mesa sem ser convidado, havia dito:
— É o que senti quando cheguei a Nimbus pela primeira vez. Com doze anos.
Todos olharam para ele.
Kael olhou para o caderno de Sira.
— Anota isso — ele disse. — Pode ser relevante.
Sira anotou.
Nimbus não era apenas uma armadilha. Nunca havia sido apenas uma armadilha — havia sido também um lar, uma escola, um lugar onde crianças com Dom e Guardiões Fluffos e professores excêntricos e ex-estudantes teimosos encontravam uns aos outros e, juntos, faziam coisas que sozinhos seria impossível.
Theo havia chegado sem saber nada.
Havia aprendido que a Sombra tinha um coração.
Que vilões às vezes são pessoas que precisam de uma segunda chance.
Que Guardiões não salvam seus protegidos — eles se salvam juntos.
E que biscoitos são sempre a resposta certa, independente da pergunta.
Mumu havia dito essa última parte.
Mas não estava errado.
FIM ⚡
E assim termina a história de Theo, Mumu, Sira e Kael.
Ou melhor — assim começa de verdade.
Porque Nimbus continua. O cristal continua. O Núcleo continua aprendendo.
E em algum lugar nas nuvens, uma nova carta está sendo escrita.
Para uma nova criança.
Com o Dom das Nuvens.
🌩️ TRILOGIA COMPLETA — A CIDADE DAS NUVENS
Livro 1: Nimbus & Os Guardiões do Segredo
Theo chega. Mumu aparece. O segredo é descoberto.
Livro 2: Nimbus e a Sombra Sem Nome
A ameaça chega. Kael surge. O cristal é salvo.
Livro 3: Nimbus e a Chave do Vazio
O Núcleo fala. A promessa é feita. Tudo muda.
Uma história original do Mundo do Imaginar
© Historiar — mundodoimaginar.com.br
Criada com carinho para crianças que acreditam que nuvens escondem segredos.
