🌑 NIMBUS E A SOMBRA SEM NOME

Trilogia A Cidade das Nuvens — Livro 2

O que aconteceu no Livro 1:
Theo chegou a Nimbus — a cidade mágica escondida nas nuvens — e conheceu Mumu, seu Guardião Fluffo, e Sira, a menina mais inteligente da escola. Juntos descobriram uma sala secreta com um cristal misterioso e mapas que mostram uma ameaça antiga chamada A Sombra Sem Nome — que só crianças com o Dom conseguem ver. E ela está chegando.

CAPÍTULO 1 — Quando a Névoa Chegou
Theo acordou com frio.
Não o frio normal de manhã cedo. Um frio diferente — úmido, pesado, que entrava pelos ossos como se o ar tivesse esquecido como ser quente.
Mumu estava encolhido na almofada tremendo como uma gelatina azul.
— Mumu. — Theo sacudiu o amigo. — Está tudo bem?
— F-f-frio — Mumu chacoalhou. — Nunca fez esse frio em Nimbus. Nunca. É um mau sinal. Tenho certeza. Cem por cento. Duzentos por cento.
Theo foi até a janela.
A cidade estava coberta de névoa.
Não a névoa normal e branca de todas as manhãs — essa era cinza-escura, quase roxa, e se movia devagar demais, como se tivesse peso. As casas de bolha translúcida pareciam apagadas. As pontes de vidro mal podiam ser vistas.
E no horizonte, maior do que nunca, a nuvem escura pulsava.
— Ela chegou mais perto — Theo disse baixinho.
— Eu sei — disse uma voz atrás dele.
Era Sira, na porta do dormitório com o caderno de anotações embaixo do braço e olheiras que mostravam que ela também não havia dormido.
— Calculei a velocidade de aproximação — ela abriu o caderno numa página cheia de números e diagramas. — Se continuar nesse ritmo, a Sombra chega a Nimbus em exatamente…
Ela apontou para um número.
— Sete dias — Theo leu.
— Sete dias — confirmou Sira.
Mumu enfiou a cabeça embaixo da almofada.

CAPÍTULO 2 — O Professor que Escondia Demais
Naquele dia, o Professor Rabisco não apareceu para dar aula.
No lugar dele havia uma professora substituta — alta, magra, com cabelos cor de relâmpago e um sorriso que parecia desenhado com régua, perfeitamente simétrico e perfeitamente falso.
— Meu nome é Professora Vex — ela disse, escrevendo o nome no quadro com letras tão perfeitas que pareciam impressas. — Serei a substituta do Professor Rabisco enquanto ele… descansa.
— Descansa? — Sira ergueu a mão. — Ele estava bem ontem.
— Professores também precisam descansar — Vex sorriu com a boca, mas não com os olhos. — Alguma outra pergunta?
Theo e Sira se entreolharam.
Mumu, sentado no bolso da jaqueta de Theo, sussurrou com uma voz minúscula:
— Não gosto dela. Meu pelo arrepia quando tem perigo. Olha.
Theo olhou discretamente. O pelo de Mumu estava completamente eriçado, fazendo ele parecer uma bola de ouriço azul.
— Controla — Theo sussurrou de volta.
— Não consigo! É reflexo!

CAPÍTULO 3 — A Pista no Mapa
Depois da aula, os três foram direto para a sala secreta.
O cristal estava diferente.
Antes pulsava devagar, tranquilamente. Agora a luz dentro dele era agitada, irregular, como um coração acelerado.
— Ele sente a Sombra — Sira disse, aproximando-se com cuidado. — Acho que é uma espécie de alarme.
— Alarme de quê? — Theo perguntou.
— Não sei ainda. Mas olha isso.
Ela apontou para um dos mapas na parede — um que Theo tinha certeza que não estava lá antes. Era menor que os outros, dobrado, com as bordas amareladas.
Theo o abriu com cuidado.
Era um mapa de Nimbus. Mas com marcações que os outros não tinham — pontos vermelhos espalhados pela cidade, conectados por linhas finas que formavam um padrão.
— Parece uma constelação — Mumu disse, inclinando a cabeça.
— É uma constelação — Sira confirmou, os olhos brilhando. — A constelação do Guardião. Cada ponto é um lugar específico em Nimbus. E as linhas… — ela traçou o padrão com o dedo sem tocar no papel, — …convergem aqui.
O dedo parou no centro do mapa.
Na escola.
Na sala secreta.
— Nós estamos no centro — Theo disse devagar.
— Não. — Sira virou o mapa. No verso havia uma única frase escrita com a letra do Professor Rabisco:
O cristal não é um alarme. É uma fechadura. E a chave são as crianças.

CAPÍTULO 4 — Mumu Tem um Segredo
Naquela tarde, enquanto Sira estudava os mapas, Theo encontrou Mumu sentado sozinho na beira de uma ponte, as perninhas balançando no ar, olhando para a névoa cinza lá embaixo.
Theo sentou ao lado dele.
Por um tempo, nenhum dos dois falou.
— Mumu — Theo disse finalmente. — Você sabe mais do que está dizendo, não é?
Mumu ficou quieto por tempo demais.
— Fluffos — ele começou, devagar, como se escolhesse cada palavra, — existem há muito mais tempo que Nimbus. A gente existia antes da cidade. Antes da escola. Antes de qualquer coisa.
— E?
— E nossos ancestrais… eles conheciam a Sombra. — Mumu olhou para as próprias mãos pequenas. — Não pelo nome. A gente chamava de O Vazio que Caminha. Uma coisa que não é mau nem bom. Que só… consome. Tudo que toca vira névoa. Vira nada.
Theo sentiu o estômago apertar.
— Por que você não disse antes?
— Porque — Mumu levantou os olhos enormes e amarelos, — meus ancestrais tentaram parar o Vazio. Todos os Fluffos de uma geração inteira. — Ele parou. — Nenhum voltou.
Silêncio.
— Mumu…
— Eu vim porque queria — Mumu disse rapidamente, como se precisasse deixar isso claro. — Ninguém me obrigou. Escolhi ser seu Guardião. Escolhi estar aqui. — Ele tentou sorrir, mas saiu torto. — Só achei que você devia saber.
Theo não disse nada. Colocou a mão ao lado de Mumu — enorme comparada ao Fluffo — e Mumu apoiou as costas contra ela como se fosse uma parede.
— Não vou deixar nada acontecer com você — Theo disse.
— Isso é minha fala — Mumu reclamou. — Eu sou o Guardião.
— Então a gente se guarda junto.
Mumu ficou quieto. Depois soltou uma bolhinha de ar azul pelo nariz.
— …combinado.

CAPÍTULO 5 — A Professora Vex
Theo começou a observar a Professora Vex.
Havia coisas estranhas nela. Pequenas. Do tipo que você só percebe se prestar atenção.
Ela nunca olhava para a janela.
Nunca, nem uma vez, olhava na direção onde a Sombra estava.
Como se soubesse exatamente onde era — e estivesse deliberadamente evitando.
— Ela não consegue ver — Sira concluiu quando Theo contou. — Adultos não conseguem ver a Sombra. Ela deve saber que está lá, mas não consegue olhar diretamente.
— Ou — Theo disse devagar — ela não quer que a gente perceba que sabe.
Sira parou. Olhou para ele.
— Você acha que ela está… do lado da Sombra?
— Não sei. Mas acho que ela sabe muito mais do que está deixando aparecer.
Naquela noite, os três decidiram seguir a Professora Vex.
Não foi fácil. Ela andava rápido, silenciosamente, sem olhar para os lados — o que paradoxalmente tornava mais difícil segui-la sem ser visto, porque qualquer barulho se destacava.
Mumu tropeçou em três coisas diferentes no caminho e quase derrubou um vaso duas vezes.
— Você é o Guardião menos silencioso do mundo — Sira sussurrou.
— Tenho pés grandes para o tamanho do meu corpo! — Mumu sussurrou de volta, indignado.
A Professora Vex parou em frente a uma porta que Theo nunca tinha visto — diferente da sala secreta deles, essa porta era de metal, fria, sem decoração.
Ela bateu três vezes. Pausa. Duas vezes. Pausa. Uma vez.
A porta abriu por dentro.
E antes que fechasse, Theo viu — por uma fração de segundo — o que havia lá dentro.
O Professor Rabisco. Sentado numa cadeira. Com os olhos fechados e expressão de quem estava lutando contra alguma coisa muito pesada.
E nas paredes, cobrindo cada centímetro de espaço: mapas. Todos mostrando o mesmo caminho. Uma rota. Uma trajetória.
Da Sombra até o cristal.

CAPÍTULO 6 — A Verdade Sobre o Cristal
— O cristal não é uma fechadura — Sira disse, às três da manhã, de volta na sala secreta, com os mapas espalhados pelo chão. — É uma prisão.
Theo e Mumu olharam para ela.
— A Sombra Sem Nome — Sira apontou para as anotações que havia feito, — não é nova. Ela já esteve aqui antes. Há muito tempo, antes de Nimbus existir, ela quase consumiu tudo. — Ela pegou o mapa antigo. — Os fundadores de Nimbus construíram a cidade aqui por uma razão. Essa região das nuvens tem uma energia específica — uma energia que o cristal consegue amplificar.
— E o que o cristal faz com essa energia? — Theo perguntou.
— Prende a Sombra — Sira disse. — Uma vez presa, ela não pode avançar. É por isso que Nimbus existe aqui. É uma armadilha. A cidade inteira foi construída como armadilha para a Sombra.
— Então por que ela está chegando de novo? — Mumu perguntou.
— Porque o cristal está fraquejando. — Sira olhou para o objeto flutuante, cuja luz agitada iluminava o rosto dela. — E para recarregá-lo…
— As crianças — Theo completou, lembrando da frase do Professor Rabisco.
— O Dom das Nuvens não é só enxergar a Sombra — Sira confirmou. — É a fonte de energia do cristal. É por isso que crianças com Dom são trazidas para Nimbus. Para manter o cristal ativo. Para manter a Sombra presa.
Silêncio pesado.
— E a Professora Vex? — Theo perguntou.
— Ela sabe de tudo. — Sira fechou o caderno. — A questão é: ela está tentando ajudar ou atrapalhar?

CAPÍTULO 7 — Vex
Eles não precisaram esperar muito pela resposta.
Na manhã seguinte, a Professora Vex estava esperando na porta da sala secreta.
Os três pararam. Mumu fez aquela coisa de ficar completamente imóvel como se ficando quieto ficasse invisível.
— Eu sei que vocês me seguiram ontem — Vex disse. Sem raiva. Com uma canseira enorme na voz. — E eu sei o que vocês descobriram.
— Então nos conte o resto — Theo disse.
Vex olhou para ele por um longo momento. Depois entrou na sala e se sentou no chão — a professora de postura impecável simplesmente dobrou as pernas e sentou no chão como se fosse uma criança.
— O Professor Rabisco — ela começou, — descobriu algo que não estava nos mapas antigos. A Sombra desta vez é diferente. Mais forte. E a razão é que alguém a está guiando.
— Guiando? — Sira se adiantou. — A Sombra tem… controle?
— Não exatamente. Pense num rio. Normalmente ele segue seu curso natural. Mas se alguém construir um canal, o rio segue o canal. — Vex olhou para as mãos. — Alguém construiu um canal. Diretamente para o cristal.
— Quem? — Theo perguntou.
— Não sabemos ainda. — Vex finalmente olhou para eles três. — É por isso que precisamos de vocês. Adultos não conseguem ver a Sombra. Não conseguem rastrear o canal. Só crianças com Dom podem fazer isso.
— E o Professor Rabisco? — Sira perguntou. — O que está acontecendo com ele?
Vex fechou os olhos por um segundo.
— Ele tentou rastrear o canal sozinho. Chegou perto demais da Sombra. Agora está… preso entre dois estados. Não está consumido, mas não está bem. — Ela abriu os olhos. — Se não recarregarmos o cristal em seis dias, ele não volta.
Mumu deu um passo à frente.
Era engraçado — ele era tão pequeno que o passo mal fez diferença na distância. Mas havia algo na postura dele, nos ombros erguidos, nos olhos amarelos firmes, que fez todo mundo prestar atenção.
— Como a gente recarrega o cristal? — ele perguntou.

CAPÍTULO 8 — Os Cinco Pontos
O mapa com os pontos vermelhos fazia mais sentido agora.
Cinco locais em Nimbus. Cada um guardando um fragmento da energia original usada para criar o cristal. Para recarregá-lo, precisavam ativar os cinco pontos — na ordem certa, no tempo certo.
— Como saber a ordem? — Theo perguntou.
— O Dom — Vex disse simplesmente. — Cada criança com Dom sente os pontos de um jeito diferente. Theo, você abriu a porta desta sala. Você consegue sentir onde está o primeiro ponto?
Theo fechou os olhos.
Era estranho. Não era exatamente um sentimento, nem exatamente uma visão. Era mais como… saber. Da mesma forma que você sabe onde está sua própria mão sem precisar olhar.
— A ponte mais alta — ele disse. — A que ninguém usa porque balança demais.
— Correto — Vex disse.
— Como você sabe? — Sira perguntou.
— Porque eu tentei chegar lá sozinha — Vex respondeu. — A ponte rejeita adultos. Cada vez que tentei cruzar, ela me jogou de volta.
Mumu estava saltitando no lugar.
— Então somos NÓS que temos que ir! As crianças! Os Guardiões! Missão especial! Adoro!
— Temos seis dias — Sira já estava escrevendo no caderno. — Cinco pontos. Podemos fazer um por dia com folga.
— Exceto — Vex levantou um dedo, — que alguém está guiando a Sombra ativamente. O que significa que alguém vai tentar impedir vocês.
Silêncio.
— Então temos um vilão — Theo disse.
— Temos um vilão — Vex confirmou.
Mumu parou de saltitar.
— …vai ter escuro?
— Muito — disse Vex.
— …ainda adoro missão especial.

CAPÍTULO 9 — A Ponte que Balança
A ponte mais alta de Nimbus ficava no ponto mais extremo da cidade — uma estrutura fina de vidro e névoa solidificada que conectava a escola a uma plataforma isolada, usada antigamente como observatório.
Ninguém ia lá faz tempo. A névoa cinza a tornava ainda mais sinistra.
A ponte balançou quando Theo colocou o primeiro pé nela.
— Tá bem firme — Mumu disse, do ombro de Theo, com a voz de quem não acredita no que está dizendo.
— Está obviamente não firme — disse Sira, atrás deles.
— Se vocês dois pararem de falar, consigo me concentrar — Theo disse.
Ele fechou os olhos. Sentiu o vento. A névoa na pele. O frio que ainda persistia.
E deu um passo.
A ponte parou de balançar.
Não completamente — mas o suficiente para que os três pudessem cruzar sem medo. Como se reconhecesse Theo. Como se estivesse esperando por ele.
No outro lado, na plataforma do observatório, havia um pedestal de pedra coberto de névoa.
Theo colocou a mão nele.
A névoa se dissipou. Embaixo, um fragmento de luz — da mesma cor que o cristal, azul-dourada — pulsava suavemente.
E quando Theo tocou, o fragmento subiu, flutuou no ar e começou a voar em direção à escola. Em direção à sala secreta.
O cristal, lá embaixo, brilhou um pouco mais forte.
— Um de cinco — Sira anotou.
— Quatro para ir — Theo disse.
Mumu bocejou.
— Eu poderia fazer isso com os olhos fechados.
— Você tinha os olhos fechados a viagem toda.
— Exatamente. Já estou treinado.

CAPÍTULO 10 — A Sombra do Vilão
Na volta, algo estava diferente.
A névoa estava mais espessa. E havia uma silhueta no meio dela — humana, parada, olhando na direção da ponte.
Theo parou.
A silhueta era de um menino. Da mesma idade que ele, mais ou menos. Cabelos brancos que se destacavam na névoa cinza. Olhos que, mesmo à distância, pareciam não ter cor nenhuma — como vidro.
O menino olhou diretamente para Theo.
E sorriu.
Não era um sorriso de amizade. Era um sorriso de quem sabe de algo que você não sabe. O sorriso mais irritante do mundo.
— Quem é esse? — Mumu sussurrou.
— Não sei — Theo disse.
O menino virou e desapareceu na névoa.
Como se nunca tivesse estado lá.
Mais tarde, Theo descreveu o menino para Vex.
A professora ficou pálida.
— Cabelos brancos? Olhos sem cor?
— Você conhece ele?
Vex ficou em silêncio por tempo demais.
— Há trinta anos — ela disse finalmente, — havia um menino aqui em Nimbus com essas características. Ele tinha o Dom mais forte que qualquer professor havia visto.
— O que aconteceu com ele?
— Ele queria usar o cristal de um jeito diferente. Não para prender a Sombra — mas para controlá-la. Para ter poder sobre ela.
Theo sentiu o frio voltar.
— Os professores não deixaram, claro — Vex continuou. — E então ele foi embora. Ninguém o viu mais.
— Até agora — disse Sira.
— Até agora — Vex confirmou.

CAPÍTULO 11 — Quatro Dias, Quatro Pontos
Os próximos quatro dias foram os mais intensos da vida de Theo.
Cada ponto era diferente. Cada um exigia algo único dele.
O segundo ponto estava no fundo do jardim suspenso — onde as plantas cresciam de cabeça para baixo e as flores abriam à meia-noite. Theo teve que passar por um labirinto de galhos que se moviam, enquanto Mumu cantarolava para distrair as plantas carnívoras.
O terceiro ponto ficava dentro do refeitório — escondido sob a mesa mais antiga, acessível apenas engatinhando. Sira ficou de vigia enquanto Theo rastejava e Mumu comia as sobras de biscoito que encontrou no caminho.
O quarto ponto foi o mais difícil — no topo do telhado, à noite, com a névoa mais espessa que nunca. O menino de cabelos brancos apareceu de novo, desta vez mais perto, sussurrando coisas que o vento carregava antes de chegarem claramente.
Mas Theo ativou o ponto assim mesmo.
O quinto e último ponto era o mais óbvio — e o mais protegido.
Estava na própria sala secreta. No pedestal embaixo do cristal.
E quando Theo chegou lá, o menino de cabelos brancos já estava dentro da sala.

CAPÍTULO 12 — Kael
— Você demorou — o menino disse.
Ele estava de costas para o cristal, os braços cruzados, como se a sala fosse dele. Talvez, de certa forma, fosse — ele conhecia Nimbus há muito mais tempo que qualquer um deles.
— Quem é você? — Theo perguntou.
— Kael — o menino respondeu, simples assim. — E você é Theo. Já sei tudo sobre você.
— Então você tem vantagem — disse Sira, entrando atrás de Theo. — O que quer com o cristal?
Kael olhou para ela com aquele sorriso de lado.
— O mesmo que sempre quis. Controlar a Sombra. Não eliminá-la — controlá-la. — Ele se afastou do cristal um passo. — Vocês sabem quanto poder existe numa coisa dessas? A Sombra não é má. É energia. Energia bruta. Sem direção. Eu posso dar direção a ela.
— Você já tentou isso antes — disse Theo. — Trinta anos atrás.
Algo passou pelo rosto de Kael. Uma sombra diferente. Mais humana.
— Eles não me deixaram terminar.
— Porque era perigoso.
— Porque tinham medo. — A voz de Kael ficou mais dura. — Medo do que não entendem. Eu entendia. Eu ainda entendo. — Ele deu um passo em direção ao cristal. — Se você ativar o quinto ponto, vai apenas prender a Sombra de novo. Por quanto tempo? Cinquenta anos? Cem? Ela vai voltar. Sempre volta. Mas se eu puder controlá-la…
— Você errou o cálculo da última vez — Sira disse. — O Professor Rabisco está meio consumido por causa das suas experiências. Essa não é uma ciência exata.
Kael parou.
Por uma fração de segundo, algo que parecia culpa passou pelo rosto dele.
Só uma fração.
— Eu sei consertar o método — ele disse.
— Você não sabe — disse uma nova voz.
Todo mundo se virou.
O Professor Rabisco estava na porta. Trêmulo, apoiado no batente, mas de pé. Com os olhos abertos.
E a gravata borboleta, fiel, abrindo e fechando as asas.

CAPÍTULO 13 — O Que o Professor Sabia
— Kael — o Professor Rabisco disse, com uma voz que tinha afeto e tristeza em partes iguais, — eu fui seu professor. Eu te conheci quando você tinha a idade desse menino.
Kael ficou imóvel.
— Você era o estudante mais brilhante que já tive — o professor continuou, caminhando devagar pela sala. — E foi exatamente por isso que ficamos com medo. Não de você. Do que o seu talento poderia fazer em contato com algo que ninguém entende completamente.
— Vocês deveriam ter confiado em mim.
— Você tinha doze anos — o professor parou na frente de Kael. — Eu tinha medo de perder você. — Pausa. — Como perdi tantos anos.
Silêncio.
Mumu, que havia ficado quietíssimo durante toda a cena, soluçou. Tentou disfarçar. Não conseguiu.
Kael olhou para o cristal. Para o professor. Para Theo.
— Se eu deixar você ativar o quinto ponto — ele disse para Theo, devagar, — a Sombra fica presa. Mas eu preciso de uma promessa.
— Que promessa?
— Que alguém vai tentar entender. De verdade. Não apenas prender e esquecer. — Os olhos sem cor de Kael, por uma vez, tinham algo dentro deles. — Ela vai voltar. E quando voltar, precisamos de uma solução real. Não outro cristal. Uma solução real.
Theo olhou para Sira.
Sira olhou para o caderno de anotações.
Depois olhou para Kael.
— Posso estudar isso — ela disse. — Não prometo resultado. Mas posso estudar.
Kael ficou em silêncio por tanto tempo que Mumu começou a se remexer nervosamente.
— …tá bom.

CAPÍTULO 14 — O Quinto Ponto
Theo colocou a mão no pedestal embaixo do cristal.
A sala inteira vibrou.
Os quatro fragmentos que haviam sido ativados nos dias anteriores vieram de todos os cantos da cidade — pontos de luz azul-dourada que atravessaram paredes e tetos como se não existissem, convergindo para o cristal.
E quando o quinto fragmento se juntou a eles, o cristal explodiu em luz.
Não de um jeito assustador. De um jeito que lembrava amanhecer — gradual, quente, preenchendo cada canto escuro da sala.
Lá fora, Theo ouviu — não ouviu, sentiu — a Sombra recuar.
Devagar. Relutante. Como uma maré que volta para o mar.
A névoa cinza começou a se dissipar.
As casas de bolha voltaram a brilhar.
As pontes de vidro reapareceram.
E o céu acima de Nimbus ficou azul — mais azul do que Theo havia visto desde que chegou.
Mumu começou a chorar. Tentou disfarçar dizendo que era alergia.
Ninguém acreditou.

EPÍLOGO — O Que Ficou
Kael foi embora antes do amanhecer.
Não havia lugar para ele em Nimbus — não ainda. Mas o Professor Rabisco disse que a porta estava aberta, e Kael não disse nem sim nem não, o que, o professor garantiu, era progresso.
O cristal brilhava constante e calmo.
Sira tinha sete novos cadernos de anotações sobre a Sombra e já havia pedido acesso à biblioteca proibida da escola.
Mumu havia dormido quatorze horas seguidas e acordou pedindo biscoito.
E Theo ficou na varanda do dormitório, olhando para o horizonte agora limpo, com o vento de Nimbus bagunçando seu cabelo.
— Você está pensando nele — Mumu disse, aparecendo do seu lado com um biscoito na mão. — No Kael.
— Estou pensando que ele não é vilão — Theo disse. — Nunca foi, exatamente.
— Não — Mumu concordou. — Mas também não é herói.
— Não ainda.
Mumu mordeu o biscoito. Ficou pensativo.
— Você acha que ele volta?
Theo olhou para o horizonte. Em algum lugar lá fora, além das nuvens, Kael estava indo embora. Para onde, ninguém sabia.
— Sim — Theo disse. — Tenho certeza.
Mumu mordeu mais um pedaço do biscoito.
— Bem — ele disse, com a boca cheia, — quando ele voltar… espero que seja com biscoito. Gentileza básica.
Theo riu.
O primeiro riso de verdade em sete dias.

FIM DO LIVRO 2 🌑
A Sombra foi presa. Kael foi embora. Mas a promessa foi feita.
E promessas em Nimbus, como as nuvens, nunca ficam paradas por muito tempo.
No Livro 3 — Nimbus e a Chave do Vazio:
Kael voltou. Mas não sozinho. Algo seguiu ele de volta — algo que nem a Sombra Sem Nome consegue controlar. E desta vez, para salvar Nimbus, Theo vai precisar escolher entre o que é certo e o que é necessário.

Nimbus & Os Guardiões do Segredo — Livro 2
Uma história original do Mundo do Imaginar
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